segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Paris: preço de imóveis volta a níveis pré-crise


O Globo, Deborah Berlinck, 08/ago
Depois da crise, a volta à bonança. O preço dos apartamentos antigos de Paris -- tradicionalmente, um dos melhores investimentos imobiliários da Europa -- voltaram aos níveis pré-crise: em um ano, aumentaram 15%, quase o dobro da média nacional (8,5%). Com o poder de compra dos franceses reduzido - apenas 16% dos locatários têm condições de comprar apartamentos - Paris tem sido uma festa para investidores estrangeiros, sobretudo de países emergentes, como o Brasil.
Que o diga Maria Cristina Pinheiro, uma goiana que opera como intermediária no mercado de imóveis de Paris há mais de dez anos:
- Estou com três pedidos de compras de apartamentos de dois e três quartos para investimento. De 2009 para cá, tem muito brasileiro querendo comprar apartamento na Cidade Luz.
Cristina tem recebido telefonemas de brasileiros com apartamento na capital francesa ou potenciais investidores preocupados com a notícia de que a prefeitura de Paris resolveu apertar o cerco contra aluguéis de curta temporada na cidade, como uma das soluções para combater a crise de habitação. Uma lei de 2005 proíbe os aluguéis de temporada em zonas residenciais. Teoricamente, só é permitido para quem tem apartamento classificado como comercial. Mas a lei não vinha sendo cumprida.
Acontece que, no ano passado, o prefeito Bertrand Delanoe encarregou o Bureau de la Protection des Locaux d'Habitation (Departamento de Proteção dos Locais de Habitação) de avisar proprietários de imóveis que a lei, agora, será aplicada. O departamento mandou 20 cartas, na sua maioria, para proprietários denunciados por vizinhos incomodados.
Não há sinal, entretanto, de qualquer mudança no mercado. Basta entrar na internet e ver sites de grandes agências de aluguel de curto prazo, como Lodgis, operando normalmente. Uma delas, a Vivre à Paris, por exemplo, ainda propõe no seu site na internet serviço completo para quem quiser investir num pied-à-terre -- apartamento de temporada - em Paris. A empresa procura e negocia a compra do apartamento, ajudando, inclusive com a tomada de financiamento no banco, e organiza a reforma do apartamento, providenciando um projeto de um arquiteto, se o proprietário quiser. E fecha o pacote com uma proposta para "tornar rentável o seu pied-à-terre" com aluguéis de curta temporada.
Segundo o Vivre à Paris, mobiliar o apartamento é o melhor caminho para isso, porque a legislação é mais leve do que para a locação de apartamento vazio e não há risco de calote, já que o aluguel de curto prazo é pago de uma vez, antes da entrada no apartamento. O presidente da seção Ile-de-France (região que inclui Paris) da Federação Nacional do Imobiliário (FNAIM), Gilles Ricour de Bourgies, vê a agitação provocada pelo prefeito como uma oportunidade para tirar do mercado várias pessoas que operam sem licença. Mas, para Cristina Pinheiro, não tem lei que fará o lucrativo negócio acabar.
- Não estamos encontrando nenhum problema (em alugar por temporada). Tem agências enormes trabalhando só com isso. Eu faço parceria com várias e não existe isso - diz Cristina, que presta serviços sob encomenda para brasileiros, inclusive junto aos bancos, para obtenção de financiamento.
Os ventos, entretanto, podem mudar. Para evitar isso, Bourgies mobilizou quatro agências da cidade especializadas neste mercado para preparar estatísticas com o perfil da clientela. Objetivo: mostrar ao prefeito que declarar guerra contra aluguel de curto prazo não tem sentido econômico numa cidade com milhares de turistas, pesquisadores, estudantes e funcionários de empresas que recorrem a este mercado. Além de afugentar investidores.
- Não será declarando guerra a alguns proprietários que se vai resolver o problema da crise da habitação - argumenta ele.
Segundo Bourgies, a oferta de apartamentos mobiliados para aluguel de curto prazo corresponde a uma verdadeira necessidade para a economia de Paris. Um pesquisador, por exemplo, não tem como pagar seis meses num hotel.
- - Não há quartos de hotel o bastante para os turistas em Paris. E não se trata só de turistas. Tem toda uma clientela das empresas que enviam seus funcionários por um ou dois meses, além de pesquisadores.
Uma constatação que também fez a revista Les Echos, num artigo sobre a situação dos estudantes. Com uma renda média mensal de 671 euros, em Paris, só um a cada sete consegue lugar em residências coletivas para estudantes.
Portanto, a crise de habitação na França, e em Paris, em particular, é real. Segundo a Fundação Abbé Pierre, dez milhões de pessoas são afetadas. Em março, milhares de pessoas saíram às ruas em Paris para protestar contra o fim da trégua na expulsão de locatários que não pagam seus aluguéis. É que a lei francesa impede expulsões no período do inverno, entre 1º de novembro e 15 de março. A cada ano, a Justiça expede 100 mil mandatos de expulsão, e mais de 10 mil são realizadas com a ajuda da polícia, segundo várias associações.
A penúria é agravada por outro fator: em Paris, por exemplo, há muitos apartamentos mantidos vazios. Um caso recente virou emblemático. Cerca de 40 pessoas, entre elas estudantes ou trabalhadores sem renda fixa, ocuparam em outubro do ano passado um prédio numa das praças mais nobres de Paris - Place de Vosges, no charmoso bairro do Marais. A proprietária, Béatrice Cottin, de 87 anos, que vive numa casa de aposentados, mantém o prédio fechado há anos.
Uma invasora, Solène, estudante no último ano do Conservatório de Música de Paris, foi com seu piano: com uma bolsa de estudos de 350 euros por mês, não havia como achar lugar grande o bastante para encaixar o instrumento musical. Mas a batalha acabou mal para os invasores, que foram processados. A ordem de expulsão saiu em janeiro, com multa de 3.400 euros "a título de indenização" para cada ocupante.

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