segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Carro elétrico terá grande teste na França

4/10/2010 - Valor Econômico

Ao longo das últimas décadas, o palácio de Versalhes tem levado milhões de turistas a Yvelines, região no centro norte da França, a menos de 30 quilômetros de Paris. A partir de janeiro, outra atração, mas ser ralação com o passado da França, e sim com o futuro, fará de Yvelines novamente centro de interesse mundial. Um grupo de pequenas cidades da região se transformará num laboratório do carro elétrico, o primeiro do gênero.
     
O automóvel com motor movido 100% a eletricidade será testado pelo consumidor. Durante um ano e meio - de janeiro de 2011 a julho de 2012 - os veículos circularão, sob o comando de usuários comuns, que farão os trajetos do trabalho ou lazer. Serão testados não apenas o veículo e toda a estrutura dos pontos de recarga, como também avaliadas as queixas e preferências do consumidor, além de falhas no sistema ou acertos necessários para atender a legislação do trânsito.

Cem automóveis elétricos vão se integrar à paisagem de uma região de pequenas cidades, chamada de Seine Aval, em Yvelines. Oitenta veículos da Renault - modelo sedã Fluence e o utilitário Kangoo - e 20 do modelo Leaf, da Nissan.
     
Além do grupo Renault-Nissan, participam do projeto a EDF, companhia de energia francesa, a Schneider Electric, produtora dos equipamentos para as estações de recarga, e a Total , principal distribuidora de combustível, que tem interesse em instalar estações de recarga também em postos tradicionais, além do governo de Yvelines e a ADEME, um órgão federal ligado ao Ministério do Meio Ambiente da França. Os investimentos no programa totalizarão € 23 milhões, dos quais, € 11 milhões da Renault-Nissan.
       
Dos 100 veículos que vão para as ruas, 15 serão usados por motoristas particulares e 85 por motoristas profissionais.
     
"Se conseguirmos provar que o carro elétrico é confiável, o motorista deixará de ficar tão ansioso com a questão da autonomia, o que mais o perturba", afirma Ziad Dagher, responsável pelo programa de experimentação dos veículos elétricos da Renault e coordenador do Save (Seine Aval Véhicules Electriques).
     
Segundo Dagher, a região chamada de Seine Aval, que significa o curso do rio Sena, foi escolhida por ser uma área de interesse nacional, onde há expectativa de promover o desenvolvimento econômico. Além disso, ali fica Flins, cidade onde a Renault construiu uma fábrica de baterias e onde será produzido o ZOE, o próximo elétrico da marca francesa, o primeiro que permitirá o sistema de recarga rápida (que permite a simples troca de uma bateria descarregada por outra carregada).
     
Dagher, um executivo de 33 anos formado em direito e com experiência em projetos ambientais, envolveu-se em uma série de questões que tiveram de ser resolvidas antes do lançamento do programa. Isso inclui negociações para que o parlamento francês criasse uma lei para permitir que o morador de um prédio possa instalar tomadas em sua vaga de garagem sem ter que pedir autorização ao condomínio.
     
São muitos detalhes, que foram surgindo ao longo de dois anos e meio, desde que surgiu a ideia do laboratório. A Toyota já havia feito uma experiência parecida na Europa usando o Prius Plug-in, que é o modelo híbrido que pode ser carregado também na tomada.
     
A infraestrutura é o que mais preocupava. Foram instalados 300 pontos de recarga em toda a região, que abrange diversas cidades com cerca de 30 mil habitantes ou menos cada uma. A população de toda a região soma mais de 300 mil.
     
Dos 100 veículos que vão para as ruas, 15 serão usados por motoristas particulares e 85 por motoristas profissionais. Nesse grupo já foram acertadas algumas parcerias, como a empresa de correios da Franca (La Poste). Os próprios funcionários da EDF usarão os carros para os trabalhos de manutenção.
     
Inicialmente estavam previstos motoristas de taxi. Mas esses profissionais não quiseram participar da fase de testes que prevê ter de esperar pelo menos 20 minutos para recarregar a bateria. Sob o argumento de que poderia perder uma corrida valiosa, os taxistas declinaram do convite, comprometendo-se a participar quando os testes forem como tipo de recarga rápida. Nesse tipo, o motorista simplesmente vai parar sobre uma plataforma, onde um equipamento fará a troca da bateria descarregada por uma cheia. Nesse sistema, que durará entre três e cinco minutos, baterias de uso comum vão circular entre a frota de veículos.
     
Mas, por enquanto, há duas opções: carregar na tomada de casa, durante sete horas, que deverá ser muito usada à noite, enquanto o condutor dorme, ou a mais rápida, de 20 minutos. É aí que entram os postos de recarga. O projeto em Seine Aval incluirá estacionamentos e supermercados. Nesse caso, a vantagem é deixar a bateria carregando enquanto se fazem as compras. Resta saber, porém, que procedimentos tomar quando o consumidor se estender por tempo além do necessário dentro do supermercado. "Porque nesse caso o uso do espaço acaba saindo mais caro que o custo da própria energia", afirma Dagher. Falta ainda fixar pontos de abastecimento públicos, nas ruas.

Cada veículo terá um software, que enviará para a central de comando os dados, como a frequência às estações de abastecimento rápido. A autonomia de um veículo elétrico chega a 160 quilômetros. Mas, há uma outra questão que a indústria precisa resolver: o uso do ar condicionado. Como o equipamento será abastecido pelas mesmas baterias que fazem o carro se mover, quanto mais o motorista quiser esquentar ou esfriar o ambiente, menos quilômetros ele vai poder percorrer.
     
Os motoristas vão, nos próximos dias, receber kits com instruções. Serão assinados compromissos de uso. E cada um receberá telefones de emergência para chamar em caso de pane ou outra dificuldade - vale aí chamar até em caso de ficar parado no meio da rua por ter se atrapalhado com o tempo restante de bateria. Serão criados blogs para que os usuários tenham um canal para registrar relatórios.
     
O projeto não se limita à França. Há projetos em andamento na Dinamarca, Itália e Alemanha. No caso, os testes incluirão regiões de fronteiras.
     
Na França, indústria e poder público correm para homogeneizar normas e infraestrutura para receber o carro elétrico. Jean-Marc Sarret, responsável pela área de comunicação da tecnologia no grupo PSA Peugeot Citroën, lembra que o plano francês é ter 50 mil pontos de recarga (públicos ou privados em 2011 e 150 mil no ano seguinte. A montadora pretende vender os primeiros 8 mil veículos elétricos já em dezembro. A marca Peugeot desenvolveu até a alternativa de aluguel de carros elétricos, ao custo de € 500 por mês, incluindo a assistência técnica. "Um carro elétrico precisa ser usado intensamente porque o custo de aquisição é alto enquanto o custo do uso é baixo", afirma Sarret.
     
Para Sarret, em razão disso, nos primeiros anos do carro elétrico, 90% dos compradores deverão ser pessoas jurídicas. Com o tempo, com a queda do preço, esse volume deverá cair para 70%. Para Dagher, o tempo que o carro elétrico levará para se transformar num veículo de massa depende do que vai acontecer nos oito primeiros anos. Esse é o tempo médio de uso dos carros na França. Para o executivo, o salto de demanda virá a partir da credibilidade do produto somada a um tempo maior de comportamento dos preços do petróleo.


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